A poucos quilômetros de uma vila simples, mas já com energia, igreja e comércio, um casal de idosos vive isolado no alto de um morro, em plena mata, como se estivesse em outro século. Sem luz elétrica, sem renda fixa e sem qualquer conforto básico, Dona Maria e seu Sebastião atravessam a velhice com o que colhem da terra e carregam nas costas até o ‘baixo’, onde trocam banana, inhame, milho e feijão por mantimentos no mercado. A realidade só apareceu para o público quando um morador da região decidiu gravar a visita. O vídeo mostra a longa subida, a trilha fechada, o risco de onça e de bicho peçonhento até chegar à pequena casa de barro.
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Ali, entre plantas, bananeiras e um fogão a lenha, fica evidente que esse casal vive isolado não por escolha de conforto, mas por falta de alternativas, apoio e acesso a direitos básicos, como a aposentadoria que Dona Maria já deveria receber há anos. Quem vê o começo do vídeo imagina apenas um passeio pelo interior. Mas logo fica claro que Dona Maria e seu Sebastião vivem isolados no alto do morro, bem acima da vila, em um ponto em que até carro tem dificuldade de chegar.
A partir de determinado trecho, só é possível continuar a pé, em trilhas estreitas, tomadas pela mata e pela lama. O repórter relata que conhecia a região ‘de quando era criança’, mas admite que já não sabia mais onde era a casa. Nem mesmo os vizinhos da vila parecem ter real noção de como esse casal vive isolado, escondido entre grotas, nascentes e capoeiras, em uma área tão remota que a visita já começa como uma espécie de expedição. A subida é longa. O casal que grava o vídeo erra o caminho, volta, tenta outra trilha, pergunta, grita por ajuda, ouve respostas ao longe.
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No meio do percurso, o narrador começa a entender o que isso significa no dia a dia de Dona Maria. Para levar um único cacho de banana até a vila, ela precisa subir e descer um morro íngreme, carregando peso no braço ou em um carrinho simples, sem estrada, sem animal de carga, sem qualquer facilidade. Ele lembra que, no dia anterior, viu a idosa ‘bem cansada’, com o rosto abatido, e isso o tocou a ponto de prometer: no dia seguinte, subiria até lá para ver de perto a realidade.
Todo o sustento vem da terra. O casal vive isolado, mas intensamente conectado à roça, plantando banana, mandioca, milho, inhame, batata-doce e outras culturas que conseguem manter no solo íngreme da montanha. Eles plantam na terra cedida por um vizinho, em regime de parceria, tirando dali o que conseguem vender e o que consomem. Um cacho de banana grande, pesado, que exige força para cortar, carregar e descer morro abaixo, costuma ser vendido por cerca de dez reais.
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Em meio a tudo isso, há um ponto central: Dona Maria vive isolada não só geograficamente, mas também do sistema de proteção social que deveria alcançá-la. Com documentos antigos, problemas de CPF e uma vida inteira na roça, ela já passou da idade de se aposentar, mas nunca conseguiu organizar sozinha o processo de pedido de benefício. Pelo que conta no vídeo, ela teria hoje 68 anos, registrada como nascida em 1955, caminhando para os 69 e, em breve, 70 anos, mas ainda sem aposentadoria. Não falta história de trabalho, falta orientação, acesso e acompanhamento.
O narrador se revolta ao descobrir que um representante da assistência social, identificado como Marcelo, já esteve no local, recolheu documentação e nunca mais voltou com respostas, segundo o relato do casal. A partir dessa visita, ele promete usar o pouco de tempo mais livre para acompanhá-los até a assistência, buscar advogado, perguntar pelo processo e tentar garantir que, pelo menos, a aposentadoria de Dona Maria saia.
Ao final, o narrador pede desculpas por ter demorado tanto tempo para visitar o casal, e reconhece que muita gente na vila nem imagina como eles vivem. Ele também destaca que muita gente reclama da casa onde mora ou de pequenos problemas do dia a dia, sem saber que há quem viva apenas com o mínimo do mínimo e, ainda assim, agradeça a Deus e sorria.
Histórias como a de Dona Maria e seu Sebastião deveriam sair do anonimato. Mostrar a realidade de quem vive isolado ajuda a escancarar que ainda há brasileiros envelhecendo sem luz, sem renda fixa, sem acesso pleno à saúde e à assistência social, mesmo morando relativamente perto de uma cidade. Mais do que comover, essa história levanta perguntas: quem está fiscalizando se a assistência social chega de verdade a quem mais precisa? Por que documentos se perdem no meio do caminho? Quem acompanha idosos que vivem em áreas rurais remotas, sem família por perto?
Ao registrar em vídeo a rotina, a casa, a roça e o esforço desse casal, o narrador também convida outros moradores e autoridades a se moverem. Nem todo mundo pode resolver tudo, mas alguém pode ligar, compartilhar, pressionar, acompanhar e cobrar. Cada pequeno gesto pode ser a diferença entre continuar vivendo isolado na invisibilidade ou, pela primeira vez, ter direitos reconhecidos e algum alívio na velhice. E você, depois de conhecer a história de Dona Maria e seu Sebastião, acha que o poder público faz o suficiente pelos idosos que vivem isolados na zona rural ou sente que ainda estamos muito longe do mínimo de justiça para essas pessoas?
Idosos em áreas isoladas enfrentam desafios como falta de acesso a serviços básicos, dificuldades para obter documentos e direitos, e isolamento social.
A assistência social pode ajudar fornecendo acesso a benefícios, orientação para obtenção de documentos e apoio para garantir que seus direitos sejam reconhecidos.
Registrar essas histórias ajuda a conscientizar a sociedade sobre as dificuldades enfrentadas por esses indivíduos e pode mobilizar ações para melhorar suas condições de vida.
Idosos isolados frequentemente têm dificuldade em acessar direitos como aposentadoria, assistência médica e social, e infraestrutura básica como eletricidade.
Melhorias podem incluir a implementação de programas de assistência social mais eficazes, a criação de infraestrutura básica e a facilitação do acesso a documentos e benefícios.