O setor de planos de saúde no Brasil vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que operadoras alegam uma crise iminente, os dados oficiais apontam o maior lucro da história. Segundo o Painel Econômico-Financeiro da Saúde Suplementar, divulgado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o lucro das operadoras de planos médicos hospitalares no primeiro trimestre de 2024 atingiu R$ 6,9 bilhões. Este valor mais do que dobra o registrado em igual período do ano passado, que foi de R$ 3,1 bilhões, refutando a ideia de um setor em colapso.
Além disso, pela primeira vez, a ANS detalhou quanto as operadoras gastam com processos judiciais: em 12 meses, totalizaram R$ 3,8 bilhões, sendo que 62,4% desses gastos devem-se ao descumprimento de contratos. A divulgação desses números traz à tona debates sobre práticas abusivas, necessidade de regulação e os reais desafios desse mercado tão fundamental para milhões de brasileiros.
O que você vai ler neste artigo:
A primeira grande surpresa do relatório da ANS é o crescimento excepcional dos resultados financeiros dos planos de saúde. O lucro operacional mais do que dobrou, chegando a R$ 4,4 bilhões em 2024 ante R$ 1,87 bilhões no ano anterior. Ao somar planos odontológicos e administradoras de benefícios, o segmento atingiu R$ 7,1 bilhões em resultados positivos.
Como explica Jorge Aquino, diretor da ANS, “tudo está melhorando, não há sinal de crise setorial“. O próprio panorama financeiro permite afirmar que há folga para enfrentar eventuais desafios e que a crise, se existe, não é generalizada.
Leia também: Pix Automático do Itaú: Entenda Como a Nova Solução Pode Reduzir Atrasos em Pagamentos
Um dos pontos mais delicados é a judicialização da saúde suplementar. Pela primeira vez, a ANS revelou que os custos judiciais equivalem a 1,23% das receitas das mensalidades. E mais: quase dois terços (62,4%) dessas despesas derivam do descumprimento de contratos por parte das operadoras.
Isto significa que o próprio setor alimenta as ações que depois usa como argumento para defender reajustes e alterações de regras, alegando impacto financeiro.
Por que tantos processos judiciais ocorrem?
Na maioria das vezes, são os consumidores que recorrem à Justiça para exigir o cumprimento do que já está previsto em contrato, como exames, tratamentos e cirurgias negadas de forma indevida.
Com a sinistralidade em queda e resultados robustos, surge a pergunta: as operadoras estariam dificultando o acesso para melhorar resultados? Segundo a própria ANS, embora esse raciocínio exista, “não se pode afirmar que há negação deliberada de procedimentos contratados, mas sim deficiência de gestão“, esclarece Jorge Aquino.
No entanto, o crescimento acelerado das queixas de usuários reforça a percepção de que os obstáculos ao acesso vêm aumentando, trazendo à tona o debate sobre o equilíbrio entre sustentabilidade financeira e respeito ao consumidor.
Leia também: INSS vai devolver descontos indevidos em benefícios na folha de julho
Um dado que chama atenção: o número de Notificações de Intermediação Preliminar (NIP), mecanismo adotado pela ANS para mediar conflitos, saltou de 91.875 em 2019 para 301.893 em 2023. Somente este ano, até abril, já foram registradas quase 87 mil queixas.
A OAB-SP e órgãos de defesa do consumidor denunciam um desequilíbrio crescente entre operadoras e usuários, com descumprimento sistemático de decisões judiciais — o que mina a confiança no sistema e intensifica a judicialização.
Para especialistas como a médica Lígia Bahia, do Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ, os números “mostram a necessidade urgente de uma regulação mais firme, inclusive de preços e garantias de cobertura“. Marina Paulelli, do Idec, reforça que a sustentação econômica utilizada como desculpa para práticas questionáveis não é confirmada pelos dados atuais.
O setor de saúde suplementar, portanto, está diante do desafio de retomar a confiança dos consumidores — e caminhar para uma relação mais transparente e justa.
| Ano | Lucro Operacional (R$ Bi) | Custos com Judicialização (R$ Bi) |
|---|---|---|
| 2023 | 1,87 | 3,1* |
| 2024 (T1) | 4,4 | 3,8 (12m) |
*Valor referente ao lucro do 1º trimestre de 2023. Custos de judicialização de faixa anual.
Frente aos resultados financeiros recordes e ao aumento da insatisfação dos clientes, a tendência é de pressões crescentes por ajustes regulatórios. Especialistas apontam que somente uma atuação mais vigilante da ANS e uma revisão do marco regulatório poderão equilibrar interesses econômicos e direitos dos consumidores.
Leia também: Pix Automático: Entenda Como Vai Funcionar a Nova Função em 2025
Adicionalmente, o avanço tecnológico na saúde, mudanças de perfil demográfico e a transparência das informações vão exigir posturas ainda mais éticas e eficientes das operadoras para garantir a sustentabilidade dos planos de saúde sem ferir a confiança dos clientes.
Fica claro que, ao contrário do que alegam algumas operadoras, o setor de planos de saúde atravessa um momento de lucros crescentes e caixa saudável, desafiando o discurso da crise. Por outro lado, a judicialização e o crescimento das reclamações indicam problemas sérios de gestão e de respeito aos contratos firmados. O debate sobre a necessidade de uma regulação mais rígida e de práticas mais transparentes nunca esteve tão urgente. Se você gostou deste conteúdo e quer acompanhar de perto as próximas novidades do setor, inscreva-se em nossa newsletter e receba atualizações exclusivas diretamente no seu e-mail!
A ANS subtrai do total de receitas oriundas de mensalidades os custos assistenciais e despesas administrativas, chegando ao lucro operacional.
Quando a sinistralidade (relação custos/receitas) aumenta, as operadoras podem repassar parte desses custos aos consumidores via reajustes.
Acesse o site da ANS, vá ao Painel de Indicadores e selecione o número de Notificações de Intermediação Preliminar (NIP) para conferir dados e estatísticas.
É um canal da ANS que media conflitos entre beneficiários e operadoras antes de ações judiciais, buscando soluções administrativas.
Registre reclamação na ANS, reúna documentos e contratos, envie notificação à operadora e, se necessário, procure Procon ou ajuize ação judicial.